CIPA, SST e a produtividade: uma relação direta

O trabalho de gestores de Segurança e Saúde do Trabalho está diretamente relacionado ao ganho ou perda de produtividade das empresas.

A sentença é dada pelo especialista no tema Pedro V. Pereira, consultor de Segurança e Saúde do Trabalho e educador da área há 34 anos, já tendo atuado na formação de mais de 20 mil pessoas.

“Vejo que quem ministra cursos deste segmento, em sua maioria, não está preparado para ser um multiplicador de conhecimento, especialmente no que tange à expectativa por resultados decorrentes da aplicação prática dos conteúdos.

“Os educadores, seja de faculdades, cursos técnicos, EAD etc, só despejam conteúdo obrigatório, mas não há comprometimento com a real aprendizagem dos alunos”, comenta Pereira. “Nos cursos que ministro, ao contrário: foco 100% na eficácia da aprendizagem. Não uso vídeos, uso exercícios práticos, procuro tensionar, estabelecer o estresse, tirar da zona de conforto, tornar tangíveis os resultados de tal forma que permitam às pessoas ver e se convencer sobre os benefícios que terão com a condução de boas práticas em Segurança e Saúde do Trabalho. Todos têm de sair do curso sabendo fazer”, completa.

PRINCIPAIS EQUÍVOCOS

Os equívocos começam, segundo o consultor, na falta de compreensão do trabalhador sobre seu papel como ente transformador no ambiente de trabalho. O curso de CIPA de qualidade instrumentaliza o trabalhador para a obtenção de resultados efetivos e eficazes na proteção, prevenção, combate a acidentes e doenças na sociedade de trabalho com reflexos positivos para o trabalhador, investidores e comunidade.

“Um dos maiores erros do educador é pensar que pode conscientizar as pessoas. É preciso apresentar motivos de convencimento, fazer com que cada um experimente uma mudança comportamental visceral. Ninguém muda por que lhe foi dito para mudar: as pessoas mudam se enxergam ganhos que virão da mudança. A partir desta percepção, então sim o trabalhador passará a aceitar que precisa mudar seu comportamento profissional e pessoal para ter mais segurança, trabalhar melhor, ser produtivo e ter mais qualidade de vida”, destaca Pereira.

Outro erro comum, segundo o consultor, é enxergar a CIPA – Comissão Interna de Prevenção de Acidentes como um instrumento de pura obrigatoriedade, um entrave, um estorvo, que muitos empresários e trabalhadores veem até como perda de tempo. Subjugada, mal preparada, desmobilizada, sem foco e sem resultados, deixa de apresentar resultados extraordinários que poderiam potencializar bons negócios para todos.

CIPA NÃO É OBRIGAÇÃO, É CULTURA

A CIPA não é uma pedra no caminho: ao contrário, se for bem estruturada, por profissionais capazes de mostrar aos trabalhadores e à gestão das companhias os ganhos que um ambiente de trabalho seguro e saudável traz às operações, processos e pessoas, este recurso será valioso para ampliar índices de produtividade e competitividade.

“Entretanto, o que se vê são empresas fazendo CIPA por pura necessidade de conformidade legal. É obrigação do empregador proporcionar todos os meios para o exercício seguro das funções em sua empresa, mas em muitos casos as reuniões de CIPA acontecem só no papel ou são feitas em meia hora, sem comprometimento em realmente modificar comportamentos, mudar culturas, obter e mensurar resultados”, destaca o consultor.

DADOS EM NÚMEROS

A sustentabilidade de qualquer negócio se baseia em pessoas. É com elas, para elas e em função delas a construção da melhoria contínua. Foco em resultados. Quem não mede, não gerencia. Quem não gerencia, perdido está! Um processo que não possui metas específicas e mensuráveis, indicadores pelos quais mede e analisa desempenho, quebra.

Todo o CIPEIRO tem importante contribuição (quando bem preparado) nestas mudanças que têm de vir de um embasamento concreto: Pereira revela que, em sua maioria, os instrutores de Segurança e Saúde do Trabalho “se preparam mal e não revelam comprometimento com a aprendizagem do aluno. Se vendem mal por não saber transformar em números os dados obtidos em campo”.

Isso dificulta o convencimento dos empresários sobre os benefícios que podem ser obtidos com a CIPA. Pereira alerta: é preciso transformar em números reais os ganhos que o trabalho de segurança produz, mostrar que um trabalhador só gerará riqueza se estiver em boas condições, que uma pessoa em processo de debilitação compromete o futuro do negócio.

E dentre os objetivos reais da CIPA, precisa estar a mudança real de cultura, e não apenas o preenchimento de todos os requisitos do PDCA.

CULTURA DE BASE

“Vejamos o exemplo da NR 12 – Proteção de máquinas. Sistemas onerosos, complexos, redundantes de dupla ou tripla proteção de máquinas para evitar que pessoas se machuquem no mau uso das mesmas, enquanto em outros países, como a Itália, economiza-se muito nisso, já que basta colocar no ambiente de trabalho um aviso informando “Afaste-se. Não ponha a mão” e pronto, todos obedecerão, porque isso vem da cultura, os trabalhadores sabem que se proteger é melhor para si”, analisa o especialista.

DESDE CEDO

Para chegar neste nível, entretanto, Pereira destaca que é preciso um investimento muito mais amplo em educação de base curricular. “Nosso trabalhador se coloca em risco e isso prejudica sua conduta e o andamento das empresas. Mas isso vem do banco escolar. Na grade curricular de formação em todos os níveis há a ausência e disciplinas voltadas à Segurança e Saúde no trabalho, isso não está em sua formação”, salienta o consultor.

Desta forma, o país deixa de aproveitar a mão de obra da melhor forma possível, as empresas sofrem com a incapacidade de proteger melhor seus funcionários e isso se reflete em um desperdício de ganhos potenciais que poderiam surgir. Uma relação na qual todos perdem.

TECNOLOGIA

Nisto, a tecnologia pode ser um poderoso aliado. “Um software especializado em Segurança e Saúde do Trabalho, em CIPA, me ajuda a minimizar erros, a cumprir prazos, mensurar metas, analisar, corrigir e potencializar desempenhos com mais exatidão, e, principalmente, a transformar em números dados factuais, que podem demonstrar resultados para o investidor sobre por que montar uma CIPA bem preparada”, afirma Pereira.

eSocial

A partir de janeiro de 2019, com a entrada em vigor do eSocial para SST, tal auxílio será ainda mais válido, mas a questão cultural ainda será o principal ponto e o principal gargalo.

“Importante:  o eSocial, não muda a legislação vigente; apenas a forma/mecanismo de confissão (informações de dados). Impõe uma severa mudança de comportamento, e quem tiver práticas erradas ou não estiver cumprindo as obrigações de SST será fiscalizado pelo implacável Leão da Receita Federal, o que poderá resultar em prejuízos ao negócio.

“É mais do que hora de analisar melhor a cultura de SST, a estruturação efetiva de CIPAs, e pôr em prática uma cultura real de melhoria das condições de trabalho para ganhos aos trabalhadores, à empresa e à sociedade”, finaliza Pereira.